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22.12.09

Tecnologística - A Logística do "pré açúcar"

Para reduzir custos e poder centrar-se na produção de açúcar e de álcool, as usinas estão terceirizando o corte, o carregamento e o transporte da cana, operação chamada de CCT.
 
 
Quem se ocupa dessa terceirização são os operadores logísticos, que precisam investir altas cifras, mostrar viabilidade do negócio e convencer o cliente de que eles podem não apenas assumir como melhorar a operação. Mas, a julgar  pelo crescimento previsto da produção brasileira e pelo número de usinas que deverão ser construídas para dar conta do volume, o negócio está apenas começando.

Se as projeções para a nova safra de cana de açúcar se cumprirem, a expectativa de moagem para a safra de 2009/10 será recorde: 629 milhões de toneladas. Até o ano passado, a logística para transportar a produção do canavial até a esteira de moagem, no setor industrial das usinas era terceirizada entre centenas de pequenos fornecedores, e feita muitas vezes de forma manual. Este cenário, no entanto, já começa a se alterar e esta tendência deve se acentuar nos próximos anos -  e os operadores logísticos integrados serão peças fundamentais nessa mudança. Neste novo modelo de operação, um ou mais parceiros logísticos da usina assumem a segunda fase, que é chamada CCT - Corte, Carregamento e Transporte. A primeira fase da terceirização, que ainda não tem nome e sigla oficiais, pode-se dizer que já começa a  ser desenhada por algumas empresas. É o preparo do solo, o plantio da muda e a aplicação de defensivos. Poderíamos chamá-la aqui, provisoriamente, de PPA. A logística no canavial é algo novo, tanto para as usinas como para os operadores logísticos. Players do segmento sucroalcooleiro, como Cosan, ETH bioenergia, do Grupo Odebrecht, e Louis Dreyfus Commodities (LDC), que juntas, operam 36 usinas, apostam no novo modelo.

A terceirização do CCT com grandes operadores começou em meados de 2007 e se tronou realidade no final do ano passado como projeto-piloto. A missão de operadores logísticos, como a Julio Simões, a Luft Agro, a Gafor, a Binotto e a Ouro Verde, por exemplo, é provar que o corebusiness de seus clientes é produzir açúcar e álcool, e que de logística são eles (os operadores) que entendem e que podem, portanto, ajudar as usinas a reduzir seus custos.

Para isso, assumem a operação, que vai desde o canavial até a esteira da moenda, num exaustivo regime de trabalho de 24X7 durante a safra, utilizando máquinas colheitadeiras computadorizadas, que fazem o trabalho de cem cortadores. Muitos dos que antes empunhavam o facão para cortar a cana, agora são treinados pelas empresas de logística e se tornam operadores de colheitadeira, motoristas de caminhão, tratoristas e fiscais, entre outras atividades. Maior produtor de cana de açúcar do país, o estado de São Paulo, está com 40% do corte mecanizado. Em uma usina sucroalcooleira, o abastecimento, composto basicamente pelas operações de CCT, responde por aproximadamente 25% do custo da tonelada de cana, ou 10% de uma saca de açúcar de 50 quilos, segundo informações das próprias usinas e de consultorias especializadas neste segmento. Os gastos com transporte variam de acordo com a distância até o canavial até a moenda, podendo oscilar entre 10% e 20%. Esses gastos também podem ser reduzidos, mas os operadores não se arriscam a dar um percentual, porque segundo eles isto depende de fatores como a distância, a topografia e condições climáticas.

Como esta é uma atividade nova, eles ainda não possuem histórico para se basear. A logística CCT é muito complexa, sendo a principal responsável pela alimentação uniforme das moendas na área industrial das usinas. Máquinas ociosas ou com cana insuficiente significam prejuízos. Por esse motivo, a estreia no canavial não é uma tarefa fácil para os operadores do CCT, que até alguns anos atrás tinham o transporte de carga como atividade principal. Das empresas acima citadas, Júlio Simões e Gafor trazem uma experiência valiosa da aplicação desse modelo no segmento de papel de celulose. No entanto, a Luft Agro, que opera CCT com a ETH Bioenergia, também pode se sair muito bem na primeira fase da logística, o PPA, pois atua há 5 anos no mercado de defensivos agrícolas, em dez deles aplicando produtos nos canaviais.

Investimento Pesado

O porte do investimento que os operadores estão fazendo neste novo negócio chama a atenção. O Grupo Julio Simões investiu R$72 milhões e tem contratos de CCT com a Cosan, a Clealco, e a Brenco. Para cumprir a demanda, o operador logístico comprou 34 máquinas colheiteiras, 87 tratores com transbordos (veículo que transfere a matéria-prima do canavial para os caminhões que levam a cana até a usina), 38 caminhões e 85 rodotrens. Os acordos celebrados com as três usinas somam faturamento acumulado de R$550 milhões até 2013.
O grupo Gafor, que tem como principal cliente a Cosam, prevê investimentos de aproximadamente R$80 milhões em 2009/10 também com a compra de caminhões, máquinas e treinamento. A empresa mantém contratos com a Clealco e ETH. A paranaense Ouro Verde, que pratica a logística CCT na Usina Eldorado, em Brilhante (MS), pertencente à ETH Bionergia, aplicou R$125 milhões neste novo negócio no biênio 2008/2009, para adquirir cavalos mecânicos, colheitadeiras, tratores, transbordos e treinamento de mão de obra.

O Grupo Luft, que tem a unidade de negócios Luft Agro como seu braço no agronegócio, aplicou R$25 milhões na logística do canavial. Seu principal cliente é a ETH. A empresa comprou equipamentos para operação do corte e carregamento, tratores e carretas para  transbordo.

Já a catarinense Binotto Logística, que aplicou até agora R$100 milhões na logística do canavial, tem como cliente a Usina de Rio Claro, da ETH Bioenergia, onde atua em toda a logística CT. Para a execução desse projeto e de outros em que presta serviço somente no transporte, a Binotto adquiriu dez colheitadeiras, 20 tratores, 86 conjuntos de transbordo com dois vagões cada um, 106 caminhões e 125 rodotrens canavieiros.

Philippe Aymard, diretor de Negócios da Gafor, diz que a logística CCT exige investimentos pesados em equipamentos e treinamento rigoroso do operador, já que ele vai lidar com máquinas computadorizadas, “Com a mão de obra cada vez mais escassa, os operadores também precisam investir fortemente para reter esse funcionário", diz. Aymard ressalta que a Gafor esta negociando este tipo de logística com outros grupos importantes do setor, e a ideia é expandir o leque de serviços. "Queremos atuar em outras atividades da logística agrícola, como plantio, preparo e adubação".

Aymard observa que a logística CCT é algo novo, tanto para os clientes que estão contratando os serviços como para os operadores. "As usinas procuram parceiros que tenham disponibilidade para investir no longo prazo, que se responsabilizem pela formação da mão de obra e que tenham disposição para adquirir conhecimento", declara o executivo.

Vladimir Donegá, diretor comercial da Luft Agro, considera que a produção é o principal  das usinas: "Elas só percebem que é preciso dedicar maior parte do seu esforço na produção, e para isso é necessário um ajuste fino entre a área agrícola e a industrial. Tudo tem de funcionar como um relógio". Ou seja, da estratégia de plantio até a entrega da cana na esteira, existem ainda inúmeras possibilidades de terceirização.

“Há uma carência por serviços muito grandes dentro das usinas, em razão de estarem montadas em lugares remotos com pouca infraestrutura para suprir suas necessidades”, observa Donegá. Ele salienta que o nível de investimento que as usinas precisam fazer nestas operações é muito alto. Por esse motivo, a terceirização da logística CCT é uma forma de elas economizarem tempo e recursos para empregarem no seu negócio. “O aporte de investimentos que um grande player deste mercado precisaria fazer num projeto de logística CCT quase daria para ele montar uma usina a partir do chão", ressalta o diretor. Donegá diz ainda que a logística CCT está apenas começando: " Estamos buscando o modelo ideal, que seja factível e transparente para ambos os lados". O sucesso, na opinião do executivo, depende um pouco mais dos operadores. "Nossa parte nesse processo é bastante crítica e a margem de erro muito pequena", pondera.

Segundo ele, antes todo o CCT era feito pelas próprias usinas, num modelo que era somente delas e do qual dominavam todo o processo. "Elas estão abrindo mão de um modelo que , bem ou mal, dava certo, e agora sua expectativa é de que , ao terceirizar as operações, o parceiro fará melhor. Sendo assim, temos de provar que fazemos realmente melhor e que podemos dar retorno", conclui Donegá.
Experiência na bagagem

Embora já estudasse o setor há mais de três anos, o Grupo Julio Simões, um dos maiores do país, também estreou recentemente no segmento sucroalcooleiro. Mas traz uma importante experiência na bagagem: a empresa atua há vários anos no segmento de papel e celulose e pretende migrar o conhecimento logístico que acumulou ao longo dos anos nas florestas de eucalipto para os canaviais.
 "Algumas etapas são muito semelhantes, o que muda é que  as toras de madeira podem ficar estocadas na floresta e a cana, ao ser cortada, tem que ser transportada para a  moenda no mesmo dia", compara Fábio Velloso, diretor-executivo de Operações e serviços da Julio Simões.

A companhia opera o modelo CCT completo na Usina Gasa, em Andradina, que pertence à Cosan. Na Clealco, a Julio Simões faz a colheita e carregamento, e no Brenco, que se fundiu com a ETH, também está prevista a operação de logística completa, quando a usina estiver funcionando. A empresa deve operar quatro milhões de toneladas de cana de açúcar só com os dois clientes, e calcula que, se a unidade da Brenco em Alto Taquari (MT) estivesse a pleno vapor, estaria carregando por volta de sete milhões de toneladas no total.

Velloso admite que até o preparo do solo e o plantio podem estar incluídos numa próxima etapa de serviços para o setor sucroalcooleiro. "Não vemos nenhuma dificuldade para assumir estas operações, desde que tenhamos o apoio de nossas parceiras no treinamento da mão de obra, já que atualmente quem detém este know- how são as usinas. Para o executivo, o sucesso do modelo CCT terceirizado e integrado num só operador depende tanto do cliente quanto do prestador dos serviços. "As usinas tendem a enxergar seus parceiros logísticos efetivamente como integrantes de sua cadeia produtiva e a trabalhar de forma integrada, desde o planejamento da colheita, passando pela manutenção de estradas, até o processo de descarga na usina, de forma a aumentar a produtividade de todo o sistema", observa. A Binotto, outro operador logístico que vem do setor florestal, atua desde o gerenciamento de florestas, passando pelo corte e pela manipulação da árvore, até a entrega do cavaco ou do material solicitado no forno ou na linha de produção do cliente. "A logística canavieira é muito parecida com a que realizamos no setor de papel e celulose, embora existam, é claro, algumas particularidades, como a urgência do transporte da cana", ressalta Edilson Ségio Binotto, diretor-presidente da empresa. A Binotto atua no CCT da Usina Rio Claro, da ETH, em Goiás. Ainda no mesmo cliente, a Binotto é responsável por 100% do transporte nas Usinas Conquista do Pontal (UCP) e Santa Luzia.

O executivo salienta que a empresa vem se preparando para o "boom" do setor de bioenergia há algum tempo e já desenvolve negociações com outros grandes grupos. "Devemos iniciar operações com pelo menos três outros clientes ainda este ano, o que prova que as usinas estão em busca de alternativas para aprimorar a gestão dos seus negócios, e a terceirização desta etapa é uma opção para diminuir os custos e focar no business principal", ressalta Binotto.

Na opinião do diretor, a complexidade do negócio sucroalcooleiro faz com que os grandes produtores busquem parceiros da logística com capacidade de investimento, excelência em gestão, e experiência em operação de campo, "pontos fundamentais para o sucesso de uma parceria desta monta", diz.

Tendência é crescer

Binotto observa que a terceirização da operação CCT é uma tendência que certamente deverá crescer em função da legislação aplicada ao segmento. "Nossa produção de cana cresceu 10% em relação a 2008, e a obrigatoriedade da mecanização é fator determinante para a produtividade e os custos de produção", observa ele. O Protocolo de Agroambiental do Setor Sucroalcooleiro estabelece o fim da colheita de cana com o uso de fogo até 2014 (para áreas  macanizáveis). O Protocolo deve ser seguido por 160 usinas no estado de São Paulo. Em evento realizado no último mês de novembro, o presidente da Única - União das Indústrias de Cana de Açúcar do Estado de São Paulo, Marcos Jank, disse que 85% dos produtores do estado já se comprometeram a cumprir as metas agroambientais fixadas no Protocolo. E que o total de área macanizada no Estado saltou, de 34,1% em 2007, para estimados 53,8% na safra 2009 -  2010. Isto significa que mais da metade da colheita já é realizada sem a queima da cana.

A Ouro Verde atende a grandes produtores, como a ETH Bionergia, Bunge, Louis Dreyfus Commodities e Santelisa Vale, entre outras. Na Usina Eldorado, em Rio Brilhante (MS), pertencente ao ETH, a operação de logística é completa e contratada por cinco anos.

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